sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Rasgo

Sucinto-me.
Agora me cabem tão poucas palavras que nem escreve-las vou.
Sim, é eminente que isso me aconteceu pois tudo voltou-me para as pontas dos dedos, ainda que momentaneamente, pulam-me fórmulas para tudo que havia dito.
Sinto-me como baionetas perfurando todas as letras de outrora.
E como um sucedaneo eficaz afirmo meu pequeno paragráfo com um chiste!
Ah, a sociedade é tão bela!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Carta de Raimundo

Este é o ultimato.
Todos esses dizeres, embora fugazes fazem-me entender que hoje, hoje não mais voltarei.
Não importo-me se soar clichê, se não aprecia uma fuga desvairada.
Me sinto vago, me sinto sujo.
Maria, nossas flores murcharam, nossa mula morreu, o feijão acabou, nosso sonho acabou.
Maria, deixo-te meu relógio e um exemplar de Odisseia por qual nunca se interessou.
Nosso desfeixe é mais triste que meu desamor.
Sabe que não volto, que é definitivo.
Voltarei para Santa Teresa, cuidarei do comércio de meu pai, e novos amores virão!
Este não é o fim, Maria.
Volte para sua mãe, volte para sua terra, onde há de achar sua sina, seu aconchego.
Junto à mim não encontrará disso.
Eu disse para padre José orar por nós, não falte nas missas, no natal compre um vestido e não tome muito champagne.
Continue a praticar piano, não chore quando não achar meus braços, não confie em todas as pessoas.
Ah! Maria... Te conheço muito, te sei tanto...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pule nas poças sem usar botas

Um lampejo da felicidade
Uma faísca de efeito
Um vislumbre de criação

Você se lembra do som da chuva?
Você já deixou seu guarda-chuva de lado?
Você sabe o que é o vento nas frestas do cabelo?
Você sabe o que é...
Sentir?
Se lembra como é pensar por conta própria?
Recorda de como desenhar uma flor?
Você se lembra das estrelas de ontem à noite?
Você se lembra do som da chuva?

Corra antes que seus joelhos não possam mais te aguentar
Conte sua história
Irrompa o envoltório
Pule nas poças sem usar botas.

Sweet begônia

Através das luzes dos carros que penetram nas gotas de chuva coladas na vidraça vejo meu amor me escapar pelas pontas dos dedos, minhas unhas recém-pintadas. Não amor físico, o sentimento. Ele me vai tão facilmente e nem gosto disso. Um dia longo. Noite maior ainda. A decepção. Os pontos finais fazem-me entender que minhas vírgulas já foram o bastante, não deveria ter insistido nelas tanto assim. Espero pelas lágrimas, elas não vem. Espero por doença, também não. Interior corroído. Uma música animada. Devagarinho vou, conto meus poucos trocados, ofereço-me uma taça de vinho, não quero. Quero assim estática apanhar minhas chances do varal, lavar as minhas roupas, vestir o meu casaco, ler o jornal, minhas notícias, meu travesseiro, meu chá de erva doce...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Gato Capuz

Um dia um gato apareceu em minha casa.
Mas era de noite. E moro em apartamento.
E não era um gato qualquer, era um gato preto em baixo da escada.
Apelidei-lhe de Capuz, pelo fato de que horas antes minha mãe havia o visto correndo deliberadamente sobre os degraus, e concluiu que por tal vulto que Capuz fizera nada menos era que um ladrão com um capuz preto.
Eu me ri. Por ser apenas inocente bixano que ora estava num canto em baixo da escada.
Ele olhava verde para mim, deconfiado. Minha mãe jogou-lhe água fria e e tive de ouvir sua ladainha que aparentava ser um "miau".
Capuz estava a flor da idade, deveria de ser o maior galanteador do bairro.
Dei-lhe comida, mas não comeu. Tentei aproximar-me mas mostrou-me as unhas e fui-me à cima da escada.
No dia seguinte quando eu saia pela manhã deparei com presentinhos nada agradáveis em toda parte, e frustrei-me com Capuz, mas não deixei de gosta-lo, ensinaria modos ao senhor felino.
Quando voltei para casa perguntei sobre Capuz, minha mãe disse que meteu Capuz à fora, que não passava de um fedorento!
Senti-me triste pois sabia que Capuz gostava de mim também...
O gato desapareceu da minha casa.
Capuz se fora.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lista para o senhor do tempo

O que eu queria mesmo era um tempo. De tudo. Primeiramente de mim. Mas é como um hiato sem vogais. Não consigo mais olhar o espelho e me ver. É... Enlouquecedor. As minhas manias, choramingos, medos, meu quarto, da maneira como escrevo, meu rosto, meu gosto e meu jeito de andar. Eu não aguento mais. Me sinto um pouco de geléia espalhada em um pão grande demais. Me sinto fora, mas muito dentro pra sair. Me sinto um copo meio cheio e meio vazio. Será isso fugir da monotonia? Má che! Quero tempo disso também...
E claro, das pessoas. Essa gente efuziva que vai entrando na sua vida, metendo o nariz. Pessoas que não fazem nem esforço pra seguir um raciocínio digamos que... Abstrato. Não, não, não é essa a palavra... Pessoas amassadas na massa. Seus gloriosos projetos se vão com qualquer brisa que se passa...
E tempo das cidades, são todas iguais tirando algumas claras diferenças culturais. Tempo da televisão, da mídia, do computador, das previsões, das ações repentinas.
Quero tempo de você, tempo para o meu surrado coração.
Mas o que me incomoda que de todo esse tempo, um dia ele volta. Porque eu não sei me recompor se não for com um tapa - Ardido, de preferencia - na cara. E tempo pra que? Depois pode ser até pior...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ér, tunts tunts

Ouvi ruidos, e pensei que fosse passos. Mas logo vi que era meu coração, inquieto, pulando...
Podia até ver seu contorno em minha pele.
E continuava com tanta facilidade e eu nem sabia porquê.
E minha respiração aumentava de acordo com o pensamento de que seria tal batimento.
Acho que de tempos pra cá, de tanto ele esperar, o que eu não sei, se desgastou e começou a sentir por ele próprio.
Mas depois à custo abri os olhos e nada havia, vacuo.
A não ser pela solidão, sentada ali em um canto, me observando, sugando minhas gargalhadas...